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Tradwives, moda e política: o que essa tendência representa?

  • Foto do escritor: Mariana Hazt Lencina
    Mariana Hazt Lencina
  • 14 de mar.
  • 4 min de leitura

Para enquadrar esse tema, é preciso falar sobre moda. A moda não reflete apenas aspectos estéticos. Ao longo da história, ela tem funcionado como um dispositivo social capaz de refletir, e muitas vezes reforçar, expectativas sobre comportamento, gênero e poder. As roupas que se tornam dominantes em determinados períodos não surgem isoladamente: elas aparecem em contextos políticos, econômicos e culturais específicos.



Eye-level view of a vibrant art studio filled with colorful paintings

A Segunda Guerra Mundial e a moda utilitária


Durante a Segunda Guerra Mundial, milhares de homens foram mobilizados para o front. Nos Estados Unidos e em vários países europeus, isso abriu espaço para a entrada massiva de mulheres na indústria e em outros setores da economia.


A mudança teve efeitos diretos na moda. Vestimentas passaram a priorizar funcionalidade e praticidade: calças, macacões, sapatos resistentes e lenços para proteger o cabelo tornaram-se parte do cotidiano feminino nas fábricas. A iconografia mais famosa desse período é o cartaz “We Can Do It!”, frequentemente associado à figura de Rosie the Riveter, símbolo das trabalhadoras industriais da guerra.




A moda utilitária refletia uma realidade concreta: mulheres assumindo funções consideradas masculinas. Como observa a historiadora da moda Valerie Steele, o vestuário desse período foi moldado por políticas de racionamento de tecidos e pela necessidade de mobilidade e eficiência no trabalho industrial.




O pós-guerra e o retorno à domesticidade


Com o fim da guerra, muitos governos enfrentaram o desafio de reintegrar milhões de soldados ao mercado de trabalho. Em diversos países ocidentais, esse processo veio acompanhado de um discurso cultural que incentivava o retorno das mulheres ao espaço doméstico.


A moda acompanhou essa mudança.


Em 1947, Christian Dior apresentou sua primeira coleção, conhecida como New Look, caracterizada por saias amplas, cinturas extremamente marcadas e uma silhueta altamente feminina. O estilo contrastava com a austeridade da moda de guerra.

Vogue, April 1, 1947
Vogue, April 1, 1947

Segundo a historiadora Joanne Entwistle, o New Look simbolizou não apenas um retorno ao luxo, mas também uma reafirmação de valores de feminilidade associados à domesticidade e à dependência econômica dentro da estrutura familiar do pós-guerra.


Nesse contexto, surge a figura cultural da “housewife”, a dona de casa suburbana idealizada na publicidade e no cinema da década de 1950. Embora frequentemente romantizada na memória coletiva, essa imagem fazia parte de um projeto social mais amplo que reforçava papéis de gênero bastante rígidos.


A ruptura dos anos 1960 e 1970


Nas décadas seguintes, mudanças culturais profundas começaram a desafiar essas estruturas. Os movimentos de contracultura e o crescimento da segunda onda do feminismo trouxeram novas discussões sobre autonomia, sexualidade e participação das mulheres na vida pública.


A moda tornou-se um espaço visível dessa transformação. A popularização da minissaia, associada à estilista Mary Quant, simbolizou uma juventude que rejeitava normas sociais mais rígidas. Ao mesmo tempo, o estilo hippie e as calças boca de sino refletiam uma estética de liberdade e contestação.


Press Association via: Daily Beast
Press Association via: Daily Beast



O poder no vestuário corporativo: anos 1980 e 1990


Nos anos 1980, o crescimento da presença feminina em ambientes corporativos produziu outra transformação estética: o chamado power dressing. Blazers estruturados, ombreiras marcadas e alfaiataria rígida tornaram-se símbolos de autoridade profissional.


A ideia era visualmente negociar um espaço em ambientes tradicionalmente masculinos.

Vogue: Ungaro ready to wear spring/summer 1989.
Vogue: Ungaro ready to wear spring/summer 1989.
Vogue: Ralph Lauren Spring 1988 campaign.
Vogue: Ralph Lauren Spring 1988 campaign.

A moda dos anos 1990 surgiu em grande parte como uma reação ao excesso visual e à estética de poder dos anos 1980. Enquanto a década anterior enfatizava ombreiras, glamour, os anos 90 caminharam em duas direções paralelas: o minimalismo sofisticado e a estética alternativa inspirada pela música.



De um lado, estilistas e marcas exploraram linhas limpas, silhuetas simples e uma elegância funcional. O minimalismo tornou-se uma linguagem dominante, propondo roupas bem cortadas e discretas que priorizavam conforto e autonomia no cotidiano feminino.

Slip dress (Kate Moss / Calvin Klein, 1993)
Slip dress (Kate Moss / Calvin Klein, 1993)

Ao mesmo tempo, a cultura musical (especialmente o grunge e o punk) teve forte impacto na moda. Camisas de flanela, jeans rasgados, camisetas gráficas e botas pesadas tornaram-se símbolos de uma estética deliberadamente despretensiosa. Essa linguagem visual ampliou os limites da feminilidade, incorporando códigos tradicionalmente associados ao vestuário masculino.

Foto: Getty Images
Foto: Getty Images

A década também consolidou o crescimento do street style, impulsionado pela cultura jovem e pela música, sinalizando uma transformação mais ampla nas normas de vestuário ao longo do final do século XX: a progressiva informalização da moda.

Foto: Mitchell Gerber
Foto: Mitchell Gerber


O retorno da estética “tradwife”


Nos últimos anos, uma nova tendência estética ganhou visibilidade nas redes sociais: a chamada “tradwife” (traditional wife). Vídeos e conteúdos digitais frequentemente apresentam uma versão romantizada da dona de casa dos anos 1950, com vestidos florais, cozinhas impecáveis e uma vida centrada na família.


É importante ter em atenção que essa estética muitas vezes ignora o contexto histórico daquele período, marcado por fortes desigualdades de gênero e raça, e pode funcionar como uma forma de nostalgia seletiva.


Mais do que simplesmente um estilo visual, o fenômeno levanta questões sobre dependência econômica, divisão de trabalho doméstico e idealização de papéis tradicionais de gênero.


Moda como comunicador histórico


A história da moda mostra que roupas traduzem valores sociais, expectativas culturais e disputas de poder.


Observar essas transformações permite entender como ideias sobre feminilidade foram construídas, contestadas e reinventadas ao longo do tempo. A moda, nesse sentido, não apenas reflete mudanças sociais, mas participa ativamente delas.


Referências

Sites

Livros

  • Banet-Weiser, Sarah. Empowered: Popular Feminism and Popular Misogyny. Duke University Press, 2018.

  • Crane, Diana. Fashion and Its Social Agendas: Class, Gender, and Identity in Clothing. University of Chicago Press, 2002.

  • Entwistle, Joanne. The Fashioned Body: Fashion, Dress and Social Theory. Polity Press, 2000.

  • Steele, Valerie. Fashion and Eroticism: Ideals of Feminine Beauty from the Victorian Era to the Jazz Age. Oxford University Press, 1985.



 
 
 

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