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Maria Madalena: a figura bíblica, o mito da pecadora e Artemísia Gentileschi

Foto do escritor: Mariana Hazt Lencina
Mariana Hazt Lencina
14 de mar.
3 min de leitura
Artemisia Gentileschi, “Mary Magdalene in Ecstasy” (c. 1625)-
Artemisia Gentileschi, “Mary Magdalene in Ecstasy” (c. 1625)-

O nome de Maria Madalena costuma evocar uma imagem muito específica: a da prostituta arrependida, convertida após uma vida de pecado. Essa narrativa, repetida durante séculos na arte, na pregação e na cultura popular, parece tão consolidada que muitos assumem que ela está diretamente nos Evangelhos. Na verdade, não está.


Nos textos bíblicos, Maria Madalena aparece como uma seguidora próxima de Jesus. O Evangelho de Lucas menciona que dela haviam sido expulsos “sete demônios”, e todos os quatro evangelhos a colocam como testemunha da crucificação e da ressurreição. Em alguns relatos, ela é a primeira pessoa a ver Cristo ressuscitado, um papel muito simbólico dentro da tradição cristã.


A associação entre Maria Madalena e a prostituição surge apenas séculos depois. No ano 591, o Papa Gregório I fez um sermão em que fundiu três personagens femininas distintas do Evangelho: Maria Madalena; Maria de Betânia, irmã de Marta e Lázaro; e a “mulher pecadora” anônima que unge os pés de Cristo no Evangelho de Lucas. A partir dessa fusão interpretativa, consolidou-se a imagem de Madalena como pecadora arrependida.


Essa leitura moldou a tradição artística ocidental.


A construção visual da “pecadora arrependida”


Na escultura Madalena Arrependida (ou Madalena Penitente), de Donatello (por volta de 1453-1455), o corpo de Maria Madalena aparece radicalmente transformado. Esculpida em madeira, retrata Madalena esquelética, envelhecida, quase desumanizada. Os cabelos longos cobrem o corpo como uma espécie de manto natural. A representação enfatiza a mortificação do corpo como prova de redenção.


Donatello, "Maria Madalena Penitente" (c. 1453-1455).
Donatello, "Maria Madalena Penitente" (c. 1453-1455).

Na pintura de Ticiano, "Madalena Penitente", a representação muda, mas lógica do arrependimento permanece. O corpo de Maria Madalena continua central, porém agora envolto numa mistura de arrependimento e sensualidade. A figura olha para o céu com lágrimas nos olhos, enquanto o cabelo longo cobre parcialmente o torso.


A penitência convive com a erotização da figura.


Ticiano, "Madalena Penitente" (1565).
Ticiano, "Madalena Penitente" (1565).

Na versão barroca atribuída a Caravaggio, Maria Madalena aparece em um momento de colapso espiritual. O corpo pende para trás, os olhos estão fechados, representando o sofrimento. A pintura concentra a intensidade emocional típica do barroco: sofrimento, abandono, vulnerabilidade.


Caravaggio, "Maria Madalena em Êxtase" (1606)
Caravaggio, "Maria Madalena em Êxtase" (1606)

Para Rubens, o tema assume uma dimensão quase teatral. O corpo seminu de Madalena é elevado por anjos em uma composição dinâmica, repleta de movimento. O êxtase espiritual se transforma em espetáculo visual.


Peter Paul Rubens, "Santa Maria Madalena em Êxtase" (1
Peter Paul Rubens, "Santa Maria Madalena em Êxtase" (1

A proposta de Artemisia Gentileschi



Com base nesse contexto, a pintura Maria Madalena em Êxtase, de Artemisia Gentileschi, se torna particularmente significativa.


A obra de Artemisia acredita-se que seja do inicio dos anos 1620, mas passou séculos em coleçoes privadas e apenas foi redescoberta apenas em 2010. Desde então, passou a ser reconhecida como um momento importante da trajetória da artista.


Em vez de sofrimento ou penitência, Artemisia apresenta uma Madalena viva. As bochechas estão rosadas, o corpo parece relaxado, a cabeça se inclina suavemente para trás enquanto os olhos se voltam para o céu. O momento não é o da conversão dramática nem o da mortificação do corpo.


É um momento de encontro espiritual.


Artemisia desloca o foco narrativo da culpa para a experiência. O êxtase não é punição nem espetáculo moral; é uma vivência interior que atravessa o corpo inteiro.


É  importante dizer que, no século XVII, o êxtase religioso era descrito através de uma linguagem profundamente corporal. A experiência espiritual não era pensada como separada do corpo. Pelo contrário, ela frequentemente se manifestava através dele. A fronteira entre espiritualidade e corporalidade era, portanto, muito mais permeável do que a leitura moderna tende a assumir.


Mais do que corrigir um vazio histórico, esse movimento também permite rever como certas narrativas foram construídas, e como elas continuam moldando a forma como olhamos para as imagens.

 

A recente aquisição da pintura pela National Gallery of Art (e a primeira obra de Gentileschi no acervo da instituição) marca também um gesto institucional relevante. Museus que durante séculos privilegiaram artistas homens começam, lentamente, a revisar seus próprios cânones.


Referências

Sites e artigos

 
 
 

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