A caricatura da “feminista feia” como estratégia de deslegitimação
- Mariana Hazt Lencina
- 18 de mar.
- 5 min de leitura
Estava cuidando da minha própria vida quando o algoritmo decidiu me entregar uma entrevista da influenciadora Pietra Bertolazzi no canal do Youtube da emissora Jovem Pan. No trecho que circulou nas redes, ela afirma que “as feias inventaram o feminismo” e argumenta que o movimento “deixa as mulheres mais feias”, porque diria às mulheres que elas podem ser bonitas em qualquer situação.
Afirmações desse tipo costumam parecer apenas mais uma provocação da internet. Mas elas ecoam uma narrativa muito mais antiga: a tentativa recorrente de reduzir movimentos de mulheres a caricaturas sobre aparência.

Ao longo de mais de um século, mulheres que reivindicaram direitos políticos foram repetidamente retratadas como fisicamente desagradáveis, masculinizadas ou socialmente indesejáveis. A caricatura da “feminista feia” não é uma invenção das redes sociais; ela faz parte de uma estratégia histórica de deslegitimação.
Durante o movimento sufragista no final do século XIX e início do século XX, cartazes e cartões-postais anti-sufrágio frequentemente retratavam ativistas como mulheres “feias”, agressivas ou incapazes de atrair homens. A mensagem implícita era simples: apenas mulheres que fracassaram no ideal feminino tradicional desejariam direitos políticos. Essas caricaturas buscavam ridicularizar o movimento e reforçar a ideia de que mulheres “normais” deveriam permanecer no espaço doméstico.
A aparência, portanto, sempre foi uma arma conveniente no debate sobre mulheres.

Antes de mais, o que o feminismo realmente discute?
Um problema recorrente nesses debates é a suposição de que o feminismo seria uma doutrina única e homogênea, que poderia ser facilmente resumida a isso ou aquilo. Na realidade, trata-se de um campo amplo de pensamento que atravessa dois séculos e inclui correntes diferentes, como liberais, socialistas, radicais, interseccionais, entre outras.
Ainda assim, antes de qualquer discussão, é útil começar pelo próprio significado da palavra. Segundo o dicionário, o feminismo é definido como "doutrina que advoga a defesa dos direitos das mulheres, com base no princípio da igualdade de direitos e de oportunidades entre os sexos".
Apesar das divergências internas, existe um eixo comum: investigar como sociedades organizam poder, trabalho, corpo e autonomia quando o assunto são mulheres.
Essa análise ficou particularmente conhecida após a publicação de O Segundo Sexo (1949), de Simone de Beauvoir, obra que argumenta que grande parte do que entendemos como “feminino” é uma construção social. Beauvoir resume essa ideia na frase que se tornaria central para a teoria feminista: não se nasce mulher, torna-se.
A partir desse ponto, muitas autoras passaram a analisar como expectativas culturais (comportamento, sexualidade, aparência) funcionam como mecanismos de regulação social.
Beleza como mecanismo de controle
É nesse contexto que entra uma das críticas feministas mais conhecidas: a análise dos padrões de beleza.
Em 1990, a escritora e jornalista Naomi Wolf publicou o livro O Mito da Beleza, uma das obras mais influentes sobre o tema. Ela argumenta que, à medida que as mulheres conquistaram mais espaço político e profissional, aumentou também a pressão cultural para que se adequassem a padrões de beleza cada vez mais restritos. Segundo essa análise, o problema surge quando a aparência passa a funcionar como um critério de valor social.

Wolf descreve o chamado “mito da beleza” como um ideal inatingível que mantém mulheres ocupadas com a própria aparência, desviando energia de outras áreas da vida (política, intelectual ou profissional).
Diferente da conclusão limitada apresentada por Pietra Bertolazzi na entrevista, a crítica feminista observa que, quando o valor social das mulheres é continuamente associado à aparência, a análise dos padrões de beleza torna-se, inevitavelmente, uma análise de poder.
A estratégia de reduzir política a estética
Quando debates feministas são reduzidos a comentários sobre aparência, como nesse caso, ocorre uma mudança de foco importante. Em vez de discutir desigualdade salarial, violência de gênero, direitos reprodutivos ou participação política, o debate passa a girar em torno de estética.
Historicamente, essa mudança de foco foi muito eficaz. Questionar a aparência de mulheres ativistas permitiu (e ainda permite) desqualificar suas ideias sem enfrentar seus argumentos.
As caricaturas e posteres anti-sufrágio do início do século XX ilustram bem esse mecanismo. Neles, mulheres politicamente engajadas aparecem como figuras grotescas, masculinizadas ou emocionalmente desequilibradas. A mensagem implícita era que a ambição política “estragaria” a feminilidade e, por consequência, a beleza.

É possível perceber que essa estratégia circula até hoje, apenas adaptada ao ambiente digital.
Eu ainda assisti a entrevista inteira para compreender melhor a linha de raciocínio da entrevistada. Em determinado momento, ela se declara antifeminista e afirma ser “contra tudo o que o feminismo conquistou e defende”. Como exemplo, menciona a liberdade sexual e a estética associada ao feminismo.
O curioso é que a lista termina aí. Ficam de fora conquistas bem mais estruturais: o direito de administrar o próprio dinheiro, abrir conta em banco, votar, trabalhar e ter reconhecimento jurídico como sujeito de direitos.
O fato de hoje ela poder estar em um programa, receber pelo próprio trabalho, expressar uma opinião publicamente e participar da vida política por meio do voto não surgiu espontaneamente. São condições que foram construídas ao longo de décadas de reivindicações e mudanças legais impulsionadas por movimentos de mulheres.
Discordar de aspectos do feminismo é legítimo. Ignorar o conjunto de direitos civis e políticos que permitiram que mulheres ocupassem esses espaços já exige um grau considerável de incoerência.
Afirmações simplificadas ou pouco embasadas sobre o feminismo continuam circulando porque, historicamente, o movimento foi muitas vezes apresentado ao grande público pelos meios de comunicação através de caricaturas, manchetes provocativas e um tom recorrente de deboche.
Quando se observa o percurso histórico do feminismo, torna-se difícil sustentar a ideia de que ele teria surgido apenas como uma reação ressentida de mulheres consideradas “pouco atraentes” aos olhos masculinos. Desde o século XIX, diferentes correntes feministas se dedicaram a debates de natureza jurídica, política e social, centrados na exclusão das mulheres de direitos civis, da participação política e de diversas esferas da vida pública.
Nesse contexto, as discussões sobre estética não surgiram como uma rejeição à aparência ou à feminilidade em si. O ponto de análise era o de compreender por que a aparência feminina passou a ocupar um papel tão central na definição do valor social das mulheres. Em outras palavras, procurou-se compreender por que, historicamente, a legitimidade social feminina foi frequentemente condicionada à conformidade com determinados padrões de beleza (algo que não opera da mesma maneira para os homens).
Responder a essa pergunta não se faz por meio de frases sensacionalistas para viralizar na internet. Exige um estudo muito mais aprofundado de história, filosofia e sociologia.
Felizmente, essas ferramentas continuam disponíveis para quem estiver disposto a utilizá-las.
Referências:
Livros
Beauvoir, Simone de. O segundo sexo. Tradução de Sérgio Milliet. 2 vols. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016.
Wolf, Naomi. O mito da beleza: como as imagens de beleza são usadas contra as mulheres. Tradução de Waldéa Barcellos. Rio de Janeiro: Rocco, 1992.
Artigos e fontes online
Franchitti, Abby. “Anti-Suffrage Caricature and the Representation of Women.” Disponível em: https://journals.openedition.org/cve/8555. Acesso em: 18 mar. 2026.
Avester, Andreas. “What We Can Learn from Vintage Anti-Suffrage Postcards and Cartoons.” Disponível em: https://andreasavester.com/what-we-can-learn-from-vintage-anti-suffrage-postcards-and-cartoons/. Acesso em: 18 mar. 2026.


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